A água da piscina estava morna, parada como um espelho que não mente. A taça estava em minhas mãos e eu olhava pra ela. Não era luxo nem fuga elegante. Era silêncio líquido. Não havia ninguém para preencher os vazios com conversa rasa. Era um silêncio conhecido. Só eu, a água e aquela taça que, sem dizer nada, parecia disposta a ouvir tudo.
Conversei com ela como quem já cansou de ser forte em público. Falei da infância como quem abre uma gaveta que range. Algumas lembranças vieram doces, outras com cheiro de poeira. Havia um menino ali que queria colo mais do que respostas. Um menino que aprendeu cedo a engolir perguntas e chamar isso de maturidade. Talvez tenha sido ali que comecei a confundir silêncio com coragem.
Depois vieram os medos. Não os grandes, que todo mundo admite, mas os pequenos, persistentes, que moram nos intervalos. Medo de não ser suficiente, de ser deixado, de nunca ser escolhido por inteiro. Esses medos não gritam. Ficam por perto. E a gente aprende a conviver com eles como quem se acostuma a uma dor antiga no corpo. Falei também das escolhas. Algumas feitas no impulso, outras na carência. Caminhos que pareciam atalhos e viraram voltas longas. Há decisões que não acabam quando a gente toma; elas continuam vivendo dentro da gente. E há amores que não terminam — apenas se dissolvem devagar, deixando marcas. Amores mal resolvidos não fazem barulho quando acabam. Eles ficam. E ocupam espaço.
A taça já não estava cheia, mas eu continuava falando. Talvez porque, quando ninguém interrompe, certas verdades aparecem. Confessei as carências que me acompanharam como uma sombra discreta. Aquela sensação de estar sempre perto, nunca dentro. De oferecer muito e receber pouco, mas ainda assim continuar oferecendo, como quem acredita que insistir é uma forma de merecer.
E então vieram as perdas. As que têm nome e as que não têm. As que levaram pessoas e as que levaram versões de mim. Dores que o tempo não levou, só espalhou. Há lutos que não acabam; apenas mudam de lugar dentro da gente. Eles não doem todos os dias, mas permanecem, como cicatrizes que lembram que a pele já foi aberta.
A água continuava calma. Eu não. Pensei no tempo. Não como calendário, mas como peso. Estou envelhecendo — não apenas no espelho, mas nas perguntas. E uma delas ficou ali, entre um gole e outro: o que eu construí? Bens? Talvez alguns. Coisas que cabem em papéis, em contas, em números. Mas e aquilo que não se mede? O que fiz com os afetos? O que fiz de mim? Existe uma idade em que a gente para de contar conquistas e começa a perceber ausências. Não por ingratidão, mas por lucidez. A gente entende que pode ter acumulado coisas e ainda assim faltar algo que não se compra. E que a carência afetiva, quando não cuidada, envelhece junto com a gente. Não desaparece com o tempo. Só aprende a se esconder melhor.
Terminei a taça devagar. O sol já tinha subido mais alto, espalhando claridade sobre a água. Não houve respostas prontas. Só uma sensação de verdade. Às vezes, encarar a própria história não cura, mas organiza. Não resolve, mas dá nome. E dar nome às dores já é um começo.
Saí da piscina sem pressa. A manhã já escorria para o início da tarde, e a vida seguia com sua simplicidade inevitável. Levei comigo a sensação de que talvez ainda haja tempo — não para refazer tudo, mas para não repetir tanto. Talvez o futuro não peça grandes construções, apenas pequenas fidelidades: a mim, aos meus afetos, ao que ainda pulsa.
Porque, no fim, a vida não pergunta quanto a gente teve. Pergunta o que ficou quando tudo calou. E naquela água clara, sob o sol aberto, ficou uma verdade antiga — dessas que a gente sempre soube, mas evita encarar.
