segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O que ficou quando tudo calou

 

A água da piscina estava morna, parada como um espelho que não mente. A taça estava em minhas mãos e eu olhava pra ela. Não era luxo nem fuga elegante. Era silêncio líquido. Não havia ninguém para preencher os vazios com conversa rasa. Era um silêncio conhecido. Só eu, a água e aquela taça que, sem dizer nada, parecia disposta a ouvir tudo.

Conversei com ela como quem já cansou de ser forte em público. Falei da infância como quem abre uma gaveta que range. Algumas lembranças vieram doces, outras com cheiro de poeira. Havia um menino ali que queria colo mais do que respostas. Um menino que aprendeu cedo a engolir perguntas e chamar isso de maturidade. Talvez tenha sido ali que comecei a confundir silêncio com coragem.

Depois vieram os medos. Não os grandes, que todo mundo admite, mas os pequenos, persistentes, que moram nos intervalos. Medo de não ser suficiente, de ser deixado, de nunca ser escolhido por inteiro. Esses medos não gritam. Ficam por perto. E a gente aprende a conviver com eles como quem se acostuma a uma dor antiga no corpo. Falei também das escolhas. Algumas feitas no impulso, outras na carência. Caminhos que pareciam atalhos e viraram voltas longas. Há decisões que não acabam quando a gente toma; elas continuam vivendo dentro da gente. E há amores que não terminam — apenas se dissolvem devagar, deixando marcas. Amores mal resolvidos não fazem barulho quando acabam. Eles ficam. E ocupam espaço.

A taça já não estava cheia, mas eu continuava falando. Talvez porque, quando ninguém interrompe, certas verdades aparecem. Confessei as carências que me acompanharam como uma sombra discreta. Aquela sensação de estar sempre perto, nunca dentro. De oferecer muito e receber pouco, mas ainda assim continuar oferecendo, como quem acredita que insistir é uma forma de merecer.

E então vieram as perdas. As que têm nome e as que não têm. As que levaram pessoas e as que levaram versões de mim. Dores que o tempo não levou, só espalhou. Há lutos que não acabam; apenas mudam de lugar dentro da gente. Eles não doem todos os dias, mas permanecem, como cicatrizes que lembram que a pele já foi aberta.

A água continuava calma. Eu não. Pensei no tempo. Não como calendário, mas como peso. Estou envelhecendo — não apenas no espelho, mas nas perguntas. E uma delas ficou ali, entre um gole e outro: o que eu construí? Bens? Talvez alguns. Coisas que cabem em papéis, em contas, em números. Mas e aquilo que não se mede? O que fiz com os afetos? O que fiz de mim? Existe uma idade em que a gente para de contar conquistas e começa a perceber ausências. Não por ingratidão, mas por lucidez. A gente entende que pode ter acumulado coisas e ainda assim faltar algo que não se compra. E que a carência afetiva, quando não cuidada, envelhece junto com a gente. Não desaparece com o tempo. Só aprende a se esconder melhor.

Terminei a taça devagar. O sol já tinha subido mais alto, espalhando claridade sobre a água. Não houve respostas prontas. Só uma sensação de verdade. Às vezes, encarar a própria história não cura, mas organiza. Não resolve, mas dá nome. E dar nome às dores já é um começo.

Saí da piscina sem pressa. A manhã já escorria para o início da tarde, e a vida seguia com sua simplicidade inevitável. Levei comigo a sensação de que talvez ainda haja tempo — não para refazer tudo, mas para não repetir tanto. Talvez o futuro não peça grandes construções, apenas pequenas fidelidades: a mim, aos meus afetos, ao que ainda pulsa.

Porque, no fim, a vida não pergunta quanto a gente teve. Pergunta o que ficou quando tudo calou. E naquela água clara, sob o sol aberto, ficou uma verdade antiga — dessas que a gente sempre soube, mas evita encarar.

sábado, 7 de junho de 2025

A urgência de estar vivo

 


Eu quero mais é correr sem rumo. As pernas soltas, o peito aberto, o vento batendo no rosto como quem dá um abraço de saudade. Há uma alegria sem explicação nesse correr desgovernado, como se os pés conversassem com o chão e a alma pedisse mais velocidade.

Gritar até perder a voz. Deixar que o som rasgue a garganta, que o grito vire música, que a música seja só minha. Um grito sem direção, feito para o céu, para as árvores, para as nuvens que passam carregadas de vontades que não se calam.

Brincar com a terra, sentir a textura viva daquilo que me sustenta. Sujar as mãos, os pés, o rosto. Entrar em comunhão com o chão e reconhecer ali uma infância que nunca me deixou. Me lambuzar de tinta colorida, espalhar cores pelos braços, pelos cabelos, pelos sonhos. Virar obra de arte sem moldura, exposição viva de sentimentos.

Me molhar até na alma. Sentir a água escorrer pelo corpo como bênção, como batismo diário. Um mergulho sem pressa, com os olhos fechados e o coração aberto. Deixar que o frio da água desperte o que adormeceu em mim.

Levantar os braços e de olhos fechados rodar até ficar tonto. Sentir o mundo girar dentro e fora, perder o equilíbrio e ganhar o instante. Cair e rolar no chão pra sentir todas as partes do meu corpo, como quem confirma que está inteiro, que ainda pulsa, que ainda vive.

Rasgar toda minha roupa, despir o corpo e também as formalidades. Rir com o gosto de quem não precisa esconder o riso. Rir alto, com gosto, com os olhos brilhando. Aquela risada que vem de dentro, que explode sem pedir licença, que faz cócegas na alma e espalha vida por onde passa.

É isso. Viver com esse desassossego bonito, com essa sede de sentir tudo, com essa urgência de ser inteiro. Porque há dias em que o mundo precisa de menos regra e mais dança. De menos pressa e mais entrega. De menos fala e mais presença.

E eu, nesses dias, só sei existir assim: correndo, gritando, brincando, rindo. Vendo o tempo passar como se fosse criança brincando de esconde-esconde. E eu? Eu me deixo encontrar.

 

terça-feira, 28 de maio de 2024

Resiliência em tempos de perdas

 


Numa história marcada pela coragem e pela resiliência, eu me vejo como um ser em constante batalha, enfrentando os desafios que atravessam o meu caminho. Cada obstáculo que surge diante de mim é recebido com determinação, com a convicção de que sou capaz de superá-lo, mesmo que as dores e tristezas se façam presentes.

A perda de entes queridos, em um curto espaço de tempo, ecoa em meu peito como uma melodia melancólica, trazendo consigo uma saudade profunda e uma sensação de vazio. As lágrimas que banham o meu rosto são testemunhas da dor que abraça a minha alma, mas também do amor que transborda em mim, da gratidão por ter compartilhado momentos inesquecíveis com aqueles que amo.

Mesmo diante da ausência daqueles que se foram, compreendo que a vida segue seu curso implacável, sem pausas, sem retrocessos. O espetáculo da existência continua a se desenrolar, com seus altos e baixos, suas alegrias e tristezas, suas perdas e recomeços. É nesse palco efêmero que encontramos a força para seguir adiante, mesmo quando o coração pese de saudade.

As múltiplas perdas recentes ainda ecoam em mim, como cicatrizes que teimam em permanecer abertas. A busca da superação é árdua, repleta de curvas traiçoeiras e abismos profundos, mas eu escolho enfrentá-la com coragem, com a certeza de que, apesar das dores, há um novo horizonte a ser desbravado.

Por aqueles que partiram, por aqueles que ainda estão ao meu lado, por mim mesmo, sigo em frente, firme e decidido, em busca da reconstrução do meu ser, da resiliência que me permitirá transcender as dores e abraçar a vida com renovado vigor. O caminho é longo, tortuoso, mas no horizonte vislumbro a luz da esperança, a certeza de que, mesmo entre os escombros, posso erguer-me e recomeçar.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Estou aqui!

 


No meio das voltas e reviravoltas, aqui estou eu. Mesmo quando a vida parecia virar as costas e os supostos "amigos" desapareciam, sigo em frente. Sobrevivi à rejeição, a olhares de desdém, e àqueles que secretamente esperavam que eu fracassasse. Mas eis que estou aqui, firme e forte.

Para os que preferem que eu não existisse, ou que minha voz se perdesse em meio ao tumulto da vida, tenho algo a dizer: estou aqui. E não é apenas uma questão de persistência; é uma afirmação de que vou permanecer, mesmo diante dos tropeços que a vida me traz.

Aos que me fitam com desconfiança, com os olhares enviesados e cheios de juízo, saibam que estou aqui, sem me esquivar. Estou aqui para marcar presença, não apenas de corpo, mas com cada pedaço de quem sou. Com meu trabalho incansável, com sorrisos que desafiam as tempestades, com a inteligência que molda meu caminho, com a irreverência que desafia o convencional e a ironia que lança luz sobre as sombras.

Sim, estou aqui. E continuarei, apesar de tudo. Não como uma resposta aos que esperavam minha falha, mas como uma afirmação da minha própria existência e da minha vontade de prosperar, de desafiar, de ser mais do que as expectativas alheias. Porque, no fim das contas, é aqui que pertenço.

domingo, 21 de abril de 2024

A luz na tempestade

 


Era uma daquelas tardes de fim de inverno em que o sol se despede lentamente, tingindo o céu com nuances de laranja e rosa. Na pequena cidade, onde o tempo parecia deslizar suavemente, as pessoas se reuniam nas varandas de suas casas para apreciar o espetáculo da natureza.

Entre essas pessoas, havia uma mulher idosa, cujos olhos transmitiam uma história de vida repleta de desafios e superações. Sentada em sua cadeira de balanço, ela contemplava o horizonte, perdida em seus pensamentos, enquanto uma brisa suave acariciava seu rosto enrugado.

Num canto da vila, um riacho serpenteava entre as colinas verdejantes, alimentando a vegetação exuberante que crescia às suas margens. Era ali que a vida transcorria em seu ritmo tranquilo, embalada pelo som das águas que fluíam inexoravelmente, como uma melodia eterna.

Porém, naquela tarde, algo parecia perturbar a paz da vila. Uma tempestade se aproximava no horizonte, anunciada pelos trovões que ecoavam ameaçadoramente no céu. Os moradores se apressaram em recolher as roupas do varal e proteger os animais nos estábulos, preparando-se para enfrentar a fúria dos elementos.

Mas a mulher idosa permaneceu calma em meio ao tumulto. Ela sabia que não estava sozinha, pois as palavras reconfortantes do profeta Isaías ecoavam em sua mente: "Quando passares pelas águas, estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti."

Com essas palavras como um escudo, a mulher enfrentou a tempestade com coragem e determinação. Enquanto o vento soprava com força e a chuva caía em torrentes, ela permaneceu firme em sua fé, confiante de que seria protegida pela mão amorosa daquele que tudo criou. E então, como se respondendo à sua fé inabalável, um raio de luz rompeu as nuvens escuras, iluminando o céu com um brilho reconfortante. A mulher sorriu, sentindo-se envolvida pelo calor divino, e soube que tudo ficaria bem. Pois, assim como o riacho que corre incessantemente em direção ao mar, ela sabia que a vida seguia seu curso, e que, mesmo nos momentos mais sombrios, havia sempre uma luz a guiar seu caminho.

E assim, enquanto a tempestade finalmente se dissipava no horizonte e o sol se punha lentamente no horizonte, a mulher idosa permanecia em sua cadeira de balanço, contemplando o espetáculo da natureza com gratidão em seu coração, pois ela havia aprendido a lição mais preciosa de todas: que, quando confiamos em Deus, não há tempestade que possa nos abalar, pois Ele está sempre conosco, guiando-nos e protegendo-nos em todos os momentos de nossa jornada.

O que ficou quando tudo calou

  A água da piscina estava morna, parada como um espelho que não mente. A taça estava em minhas mãos e eu olhava pra ela. Não era luxo nem...